O currículo vitamina
Eu vim de uma aldeia para Madrid.
Na primeira tentativa fui expulso do colégio (isso conto outro dia) e voltei para a aldeia para repetir o equivalente ao último ano do liceu, que hoje já nem existe e sinceramente nem sei como se chama agora.
Na segunda tentativa já não fui centrifugado e criei raízes.
Quando você vem de uma aldeia, a sua família há várias gerações trabalha na medicina e você viajou o mínimo possível — ou seja, quase nada — então não conhece praticamente ninguém.
Eu não conhecia ninguém naquilo que tinha decidido estudar: Ciências da Informação com especialização em Publicidade e Relações Públicas.
Olha só. Uma licenciatura meio porcaria.
Cinco anos jogados no lixo
Era o que eu pensava naquela época.
Mas isso, assim como a expulsão, será contado em detalhe noutro post.
Naquele tempo, trabalho se procurava enviando currículos. Assim mesmo: envelope, carta dentro do envelope, lambidinha, selo dos Correios e caixa do correio.
E esperar.
Um dia… bom, naquela época as cartas demoravam três ou quatro dias… cinco dias, uma semana, outra… nada. Cri, cri, cri.
Voltava tudo de novo. Procurar anúncios, olhar jornais, visitar agências de publicidade e depois ir para casa escrever à máquina um currículo que não tinha praticamente nada para contar além de uma vindima, um dia como estafeta na minha Vespa para uma revista e alguma experiência num pub em Alonso Martínez chamado Impacto.
De onde também fui despedido por oferecer demasiadas segundas bebidas no Colégio Maior. Uns ingratos.
Aliás, não existiam computadores
Bom… existiam, mas eu não tinha um.
E lá estava eu, batendo nas teclas sem parar e lembrando das famílias dos secretários e secretárias que pegavam nos meus currículos e os atiravam diretamente para o lixo.
Paciência. A minha oportunidade chegaria.
Não me importava trabalhar como gestor de contas, criativo, producer, porteiro, telefonista ou vigilante noturno. Eu só queria meter o pé dentro de qualquer agência de publicidade.
Eu ia ao VIPS comprar livros da Era de Ouro da Publicidade e queria viver aquilo com todas as minhas forças.
Até que um dia apareceu um anúncio para um cargo de que eu nem gostava muito.
Acho que era da agência especializada em saúde da Ogilvy. Uma divisão ou agência separada para laboratórios, hospitais… sei lá.
E pensei: vou usar toda a minha criatividade.
Fui à loja de doces e comprei umas gomas coloridas num frasquinho. Fiz uma caixinha de cartão e comprei papel vegetal. Era assim que se chamava.
Agora você vai entender
Preparei tudo como se fosse um medicamento. Eu era o medicamento.
E escrevi:
Indicações: empresas que precisem de ideias frescas e criatividade todos os dias.
Posologia: cinco dias por semana, 8 horas por dia. Se os sintomas não desaparecerem, o tratamento pode estender-se aos fins de semana.
Composição: ideias, energia, visão crítica, entusiasmo, juventude, frescura e vontade de aprender.
Contraindicações: nenhuma. Pode contratar mesmo que ache que está grávida.
Preço: grátis. Enquanto durar o período de estágio.
Validade: até outra agência aproveitar a vaga deste medicamento, porque ele não ficará muito tempo na farmácia.
E mais coisas. Já foi há trinta anos, nem me lembro de tudo.
E mandei aquilo
E o que aconteceu?
Nada. N A D A.
Ninguém me ligou.
Continuei digitando currículos e esperando pela minha oportunidade, que chegaria alguns meses depois.
Desgraçados!!!! Ainda hoje não entendo como nem sequer me chamaram para uma entrevista. Mas foi assim.
Eu vou chamar você. E vou responder. Quer testar? Subscreva aqui.
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Eu teria me chamado, hahahaha.
Aprendizagem: o seu momento sempre chega enquanto você continuar tentando com vontade e paixão. Merecer é conseguir. S E M P R E.
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